Por mim, aconchegada num casaco que parece feito de um velho cobertor de lã pura, um cachecol, agora chamam-lhe golas, apreciei as fugas solares que um céu denso de núvens permitia de vez em quando, os marmeleiros depenados acompanhados de tangerineiras que de tão carregadas alguns galhos quase tocavam no chão, a rede que nalguns lugares estava abatida sinal de que alguém tentou clandestinamente entrar naquele jardim e comer algumas frutas. Não tive conhecimento de nenhum assalto à vivenda até porque conheço os seus velhos proprietários, sem filhos e conhecidos na vizinhança como "unhas de fome". Pensei neles quando mais novos, talvez com a idade que tenho hoje, e na sua sobranceria de "senhores intocáveis"
Entretanto a minha amiga chegou e finalmente desliguei-me do mundo que naquele momento me rodeava. Pelo canto do olho reparei que aquela parelha, no meu imaginário, de mãe e filha com uma das mãos seguravam um garfo e com a outra, agora era o indicador, movimentava-se num telemóvel apoiado em cima da mesa.
Aqueles que comigo convivem diariamente sabem que andar com o telemóvel como se de um amuleto se tratasse nunca fez parte de mim embora o tenha comprado, decorria o ano de 1996, extamente pela necessiade de estar facilmente contactável.
De há uns tempos a esta parte, anos posso dizê-lo, trago aqui à minha volta alguns refilões à perna que me perguntam, com frequência, "mas afinal para que queres tu um telemóvel?"
Sempre atribuí isso à minha, crónica, distração. Afinal, mais não foi do que uma defesa, uma espécie de "não ter que estar sempre de perna aberta" pois sentia que tinha que me salvaguardar dos "abusadores".
Sem disso ter tido consciência mais não fiz do que uma resistência ao pessoal que:
- "gritam" por eu não responder quase de imediato às sms;
- em vez de levantarem o cu do carro e tocar à campaínha para dizerem "cheguei e despacha-te" mandam sms a dizer "estou cá em baixo" e acham que tenho a obrigação de ter as mãos e pensamento sempre ocupados com tal objeto;
- se "enfurecem" por eu "quase nunca" ouvir o telemóvel tocar pois não entendem que tenho o direito a estar tranquilamente a comer, sentada na sanita ou simplesmente a passar pelas brasas;
- aos que para não estarem com o trabalho de tirar o seu telemóvel da carteira passam essa tarefa a um desconhecido quando querem saber as horas. Depois de ter observado isto várias vezes agora respondo sempre "lamento não poder ajudá-lo mas o meu telemóvel caiu um destes dias e essa app ficou desnorteada"
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A lista é grande mas fico-me por aqui :)
A partir de agora quando me incomodarem mando-os logo passear com o argumento "lamento informar mas não evoluí ao ponto de já ser uma cyborgue"
:)
Há sete anos alguém disse que a socióloga norte-americana Amber Case (Portland, 1987) vinha do futuro para nos contar em que poderíamos nos transformar se nos deixássemos seduzir, sem reservas, pela tecnologia. Foi depois de uma palestra TEDx que Case, também definida como ciberantropóloga, chamou a atenção para como os humanos estavam deixando coisas importantes demais nas mãos da tecnologia. A capacidade de memorizar, de recordar, de nos comunicarmos, de estabelecer empatia. Na época, o uso do WhatsApp não era tão generalizado, não existia Instagram e tampouco o conceito de branding aplicado aos indivíduos. Hoje, com tudo isso sobre a mesa, ela defende voltar ao básico, aos objetos que duram; buscar espaços de reflexão e a tecnologia tranquila. Só assim, ao nos lembrarmos de quem somos, poderemos voltar a nos conectar com nós mesmos. “A natureza é a melhor designer, temos de voltar a nos inspirar nela para viver”, disse em sua última visita a Madri para a apresentação da nova edição da revista Telos, da qual é capa.
Pergunta. O que estamos fazendo de errado?
Resposta. Quando me levanto pela manhã devo me perguntar se dedico tempo a mim mesma, se posso meditar, desenhar, se escrevo. Mas o fato é que o meu dia a dia está tomado pelas notificações do telefone, do computador. Então, que tempo de reflexão me reservo?
P. E como resolvemos isto?
R. Dando-nos espaços para pensar e vivendo experiências reais. Estamos conscientes da quantidade de alertas que nos cercam? Silencie o telefone, desative as notificações. Ponha o celular no modo avião e decida você mesmo quando quer interagir com ele. Recupere o despertador! Carregue um jornal com você, anote o que você faz, as pessoas com quem cruza, o que lhe chama a atenção. O cérebro sofre com a conexão constante. Faça uma experiência se você não acredita: depois de várias horas navegando, seria capaz de recordar o que viu e como se sentiu?
P. Entendo que a resposta é não…
R. Não, pois é, não fica nada na cabeça. E você se perguntará: mas como pode ser, o que eu estive fazendo durante três horas?
P. A tecnologia está fundindo o nosso cérebro?
R. A tecnologia não é ruim, mas seu uso está nos desconectando e escravizando. Chegamos a olhar o celular entre 1.000 a 2.000 vezes por dia. Temos que começar por redefinir nossa relação com a tecnologia: é uma ferramenta, muito útil, mas tem que nos tornar livres. O celular é o novo cigarro: se fico entediada, dou uma olhada nele. Não mande mensagens vazias de emoção, convide seus amigos para um jantar na sua casa.
P. Você observa alguma reação na sociedade diante dessa hipnose, ou vamos de mal a pior?
R. Sim. Há cada vez mais casos de gente que precisa escapar disto, que explodiu pela depressão, pela ansiedade. Muitos colegas da tecnologia foram morar em fazendas, muitos inclusive as compraram! As pessoas precisam ter a experiência de que estão vivendo algo real. E não é questão de romper com a tecnologia, e sim de usá-la desse jeito. Talvez possamos começar agora e nos poupar de ir parar numa fazenda.
P. Ou num retiro de ioga ou de meditação vipassana, que agora estão na moda...
R. Sim, quando fazemos algum retiro, aí é que nos damos conta de que temos tempo para pensar (e muitas vezes não gostamos do que vemos; nos angustia). Mas deveríamos poder fazer isso diariamente, não condicionar esses espaços a ter dinheiro e poder pagar um retiro de ioga. Vivemos constantemente em atenção parcial, nunca estamos presentes, portanto não temos tempo de reflexão.
P. Os horários de trabalho também não ajudam...
R. A revolução industrial nasceu com esse conceito de que, haja o que houver, você precisa trabalhar mais de 10 horas por dia, mas com os celulares, além disso, você sai e continua trabalhando. Daí a importância de desativar as notificações. Ou por acaso não merecemos ter liberdade? O que somos, robôs sem direitos humanos? Isto é uma loucura, e não deveria ser permitido. A França já limitou.
P. Mas então as empresas poderiam dizer que não somos produtivos, ou diretamente que nós não gostamos de trabalhar…
R. Nem o trabalho nem a eficiência melhoram a qualidade de vida. Ser eficiente deveria ser ter que trabalhar menos. E não só trabalhamos mais, como também não estamos presentes, perdemos a noção do tempo… Mau chefe o que considera que as horas trabalhadas tornam você mais ou menos produtivo. Venderam-nos que a tecnologia nos tornaria a vida mais fácil, mas atualmente trabalhamos muito mais e temos menos tempo de liberdade.
P. E esperamos as férias para ter essa liberdade...
R. O problema das férias, quando se trabalha dessa maneira, é que na desconexão a pessoa encara uma vida que não quer. Repensa sua existência inteira, promete que vai estruturá-la, mas volta para o trabalho e volta a não ter tempo. E o sistema nos exige ser criativos, inovadores, criar o futuro, mas as pessoas, sem espaços nem tempo, sofrem de ansiedade e depressão. É preciso parar, e não só nas férias. Antes conseguíamos, por exemplo, ler um livro, mas cada vez se lê e se retém menos, o cérebro se distrai.
P. A Internet ajuda a nos conectarmos com mais gente, a estarmos menos sozinhos...
R. A sensação de estar conectado é como uma miragem perigosa. Você se sente só, mas sente que faz parte de um coletivo, por isso não dedica tempo a você mesma. E quando finalmente você tem tempo para você... se sente péssima, porque lhe faltam experiências autênticas. Por estarmos conectados com outros o tempo todo, nos esquecemos de que nós também contamos e que merecemos tempo em silêncio, conectando com nós mesmos.
P. Mas as redes ajudam a romper a rotina, a ver outras paisagens, países, restaurantes...
R. Nas redes temos que nos adequar, contar a todo mundo como aparentamos ser felizes. Mas não é autêntico, ninguém se lembra de você quando não publica nas redes sociais. A Internet é como Hollywood: lá, sem filme de sucesso você não existe, e, no meu caso, se eu não publicar não interesso a ninguém. Sinto falta das redes do começo da Internet, com pequenas comunidades com gostos afins, onde você ainda podia ser muito mais autêntico sendo anônimo.
P. Por que você acredita que o anonimato na Internet nos torna mais autênticos? Não seria o contrário?
R. Todos carregamos o peso de precisar ser a personalidade que decidimos construir, e você não pode sair dali, precisa alimentar as suas redes. Não gosto da concentração da Internet que existe. Defendo uma rede mais distribuída, não monopolizada, com relações mais autênticas entre as comunidades. Onde se possa controlar melhor o abuso, porque uma empresa grande não se importa e não vai lhe proteger. E, sobretudo, onde não caibam as notícias falsas.
P. Esse negócio das notícias falsas parece incontrolável a esta altura...
R. Claro, porque os anunciantes se importam com as visitas, mas a coisa mudaria muito se eles levassem em conta a veracidade de uma informação antes de colocar o seu anúncio ali. Se realmente se importassem, não pagariam ao veículo que publica notícias falsas.
P. O que necessitamos para viver de um jeito mais autêntico?
R. Precisamos de mais humanidade nos serviços com relação ao público. E precisamos recuperar o valor das coisas, coisas que durem muito tempo e que sirvam para todos, não só para os jovens com alto poder aquisitivo, pois parece que agora só se fabrica para esse setor. A melhor tecnologia tem que ser a que dure mais e a de melhor qualidade, não a que muda rápido.
P. Ouvindo você falar parecesse que não leva em conta que o sistema foi feito para fabricar, usar e jogar fora...
R. Sim, mas o mercado precisa se repensar, porque os recursos naturais se esgotam. Se procurarmos a qualidade, os preços subirão, mas o que você comprar durará mais. As calm technologies estão dentro desse movimento de parar para viver melhor, mais devagar, de forma mais orgânica, mais natural…
P. A chave está em voltar a viver na natureza?
R. Se levássemos a natureza em conta, se a imitássemos, se nos inspirássemos nela, faríamos melhores criações e seríamos muito mais felizes. Ela é a melhor designer, sempre foi. Neste mundo industrial, estamos muito isolados, mas ainda podemos aprender muito com a tecnologia para melhorar nossa qualidade de vida.
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