Depois de uns dias intensos e meio destrambelhados nos quais não consigo deixar de me espantar com as pessoas ou como diz alguém "hei-de morrer a espantar-me com elas" consegui, finalmente, ter um dia de calmaria em que me foi permitido estar neste mundo virtual numa de relax uma vez que o tempo não permite uma esplanada, um passeio descontraído e o nosso amor está longe.
Não conhecia a existência de tal programa lá fora e cá dentro. Estive tranquilamente a ler tudo o que foi possível: IAC, OPP, CPCJ, ERC e sei lá que mais.
Mas ali no Senhor Impontual leio, nos comentários, uma deriva sobre os blogs e seus primos mais novos versus privacidade.
Como adepta, fervorosa, de blogs e depois de muitos anos em que muita tinta e lágrima e noite em branco correu pois há pessoas que insistem em fazer análises sobre o que somos, quem somos e fazendo julgamos morais partindo da nossa escrita, Como se nos fosse vedado todos termos, dentro de nós, um bocadinho de Fernando Pessoa (1) como se só aos génios tal caminho posse permitido (2) (3) (4) (5) (6) ...
Não foram só coisas más pois ajudou-me a ver o outro com outras possibilidades e conheci pessoas extraordinárias. Umas passaram para o mundo real outros ai permaneceram e ai permancerão toda a vida com o nome e nomes que para si escolheram.
De todo esse emaranhado de emoções o que mais me indignou e continuará a indignar foi a existência de pessoas que se auto proclamavam como impolutas, as maiores guardiãs da liberdade, do respeito pelo outro, do direito à privacidade... eram as primeiras a ter, sitemeter (na altura o mais conhecido) e toda uma panóplia de aplicações que permitiam ver os ips de quem nos visitava, de onde nos visitava, quantas vezes vinha, a que horas vinha, quanto tempo permanecia na nossa casa... havia aqueles que assumiam a sua veia de espiões e tornavam público que tinham isso instalado, mas outros, mais refinados, até de forma anónima o faziam. Havia, inclusivé, quem se desse ao luxo de ver quem comentava o quê e aonde se se escrevia mais num blog do que noutro... e de tudo isso fazia julgamentos com uma moralidade mais exigente do que a do diácono remédios.
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Descobri que há pessoas que para si exigem todo o respeito pela sua privacidade mas são incapazes de a pôr em prática em relação aos outros. Fazem da sua vida pessoal uma empresa onde o outro é sempre um concorrente a quem "tenho que ganhar e se o poder abater ainda melhor pois o meu score subirá mais uns níveis."
Fui apanhada nesse emaranhado chegando ao ponto de eu própria entrar nesse delirio.
Um dia disse: "BASTA"
Tudo encerrei

Mas como gosto de escrever sem qualquer outra pretensão que não seja a de nuns bons metros de quadrilé pintar as formas e as cores do que me aquieta e inquieta os dias decidi criar este blog
Lamento por eles pois muitos ai continuam.
Hoje ao fazer umas pesquisas rápidas sobre este fenómenos dou com esta análise e fico-me por aqui a pensar: contribuirá este mundo virtual, qual virus, para fazer despoletar e/ou acentuar, patologizando, um traço de personalidade, vulgar, dos seres humanos e essencial à sua sobrevivência que consiste em quando acordado ser capaz de ver-se a si próprio como nos sonhos? Será o anonimato permitido por este mundo virtual "os muros, as grades e os guardas (...) “Lá fora é só um ex-presidiário com artrite nas duas pernas”, incapaz de viver fora do ninho."
Será que este anonimato nos traz a liberdade de podermos ser o que uma sociedade castradora nos impede ou será que o anonimato ao nos dar essa liberdade nos impede de lutarmos por um mundo diferente? Não haverá quase dominio nenhum do nosso mundo em que, hoje, não se diga que há um retrocesso civilizacional embora de revolucionários de sofá esteja o mundo a transbordar.

