Preciso saber

sábado, 14 de outubro de 2017

da vida própria dos objetos




ela era uma mulher que gostava de estar prevenida
pode sempre surgir um imprevisto
 
do enxoval
fazia parte uma mortalha

à parte 
uma mala com 
camisas de dormir
cuecas
meias
roupão
liseuse
chinelos
toalhas
um saco com
escova dos dentes e respetiva pasta
pente, escova de cabelo, shampôo e sabonete 

todas as primaveras fazia a limpeza da casa
abria as malas
tudo lavava e trocava o que tinha a trocar
novo sabonete, pastas dos dentes e shampôo

no cimo do armário da cozinha um cesto de pic nic
lá dentro 
uma toalha grande e duas pequenas
seis canecas de esmalte
pratos e talheres de aluminio
ainda não havia a febre dos plásticos
nem se sabia dos perigos daquele metal

foi internada 
várias vezes
tudo usou

morreu
foi embrulhada no seu lençól de linho 
com entremeio de renda que fez em noites de invernos à luz da candeia de petróleo
ainda nova 
porque nunca se sabe quando ela chega



muitas vezes a vi de olhos perdidos a olhar  lá para cima
o cesto de pic nic nunca foi usado
ele não gostava 
era avesso a essas coisas

hoje
 mexi nestes objetos