Perguntei à minha filha qual a opinião dela sobre a divulgação do vídeo da rapariga a ter relações sexuais num autocarro dos stcp a que muitos atribuiram logo como sendo uma violação.
Eis a resposta que veio via messenger
Tenho 23 anos, sou universitária no Porto e vivo intensamente a semana da queima.
Já apanhei algumas pielas generosas e fiz alguns disparates sem me exceder seja a pôr-me em perigo ou ao outro. Oponho-me a todo o tipo de praxes que impliquem a humilhação do outro esteja ou não lúcida.
Não há forma de lhe fugir [à internet] pois tudo pois tudo o que fizermos de certo ou errado ficará lá.
É a nossa pegada.
É como se tivessemos na cara um enorme sinal que não passaria despercebido a ninguém. Não há como ignorar, como fugir não havendo plástica capaz de o anular, pode minimizar mas anular nunca.
O que faria se isto acontecesse comigo?
- Assumiriam as consequências dos meus atos:
- estar profundamente bêbada (não é crime)
- não ter a noção do local em que me encontrava (não é crime)
- que fiz sexo num local público (atentado ao pudor? Pelo que vi não me parece que se estaria a exibir perante estramhos por isso não sei se seria atentado ao pudor mas admitamos que seria)
Porém esse meu erro não dá o direito aos presentes, que voyeuristicamente se divertiram, de o filmarem e de o tornarem público pelo que apresentaria queixa das bestas. Mas como sei que a justiça dos tribunais não é a mesma da vida e uma das grandes diferenças é o tempo que cada uma leva a concretizar-se aplicaria a lei do talião colocando na net o focinho deles. Haveria de arranjar maneira de me lembrar de todos. Se escapasse algum paciência
Depois assumiria a luta contra essa barbárie, como uma bandeira, pela qual todas as pessoas em situação vulnerável não podem ser usadas para satisfazer os caprichos de uns quantos delinquentes.
Por tudo o que disse não me incomodaria se um jornal publicasse o vídeo pois sabemos bem do poder das imagens. Sem elas seria uma noticia que passaria despercebida pelo que mais uma vez esses protonazis que estão nas universidades passariam impunes.
O artigo que me enviaste dá a entender que o CM apenas o fez porque precisa de vender mais. Antes fazê-lo denunciando situações perigosas do que invadindo e inventado factos como parece ser frequente, por exemplo, no caso do Sócrates ou do Ronaldo.
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Aquilo não é jornalismo
Opinião - Diogo Queiroz de Andrade18 de Maio de 2017, 1:29
Todos os que compram o Correio da Manhã, todos os que lá escrevem e todos os que lá anunciam são cúmplices das atitudes vergonhosas do título.
Ontem um órgão de comunicação social publicou um vídeo que demonstra
uma agressão sexual a uma mulher. Depois de ter passado o dia a ser
violentamente criticado, o mesmo órgão de comunicação veio defender-se com um suposto compromisso com os leitores,
justificando-se com três argumentos: que “sem notícias é impossível
haver reflexão”, que as imagens já circulavam nas “redes sociais” e que
“a realidade não fica melhor por ignorarmos os factos”.
São três verdades – que servem para esconder uma mentira. Porque a exibição do vídeo não é nem nunca seria notícia, é preciso denunciar esta mentira. A agressão é notícia, o vídeo faz parte da agressão e por isso relatar a sua existência fará parte da notícia. Mas exibir o vídeo é sensacionalista, degradante e humilhante para a vítima. Não é notícia e visa apenas conquistar mais cliques e ganhar a guerra da atenção – aquela que se ganha facilmente quando não se tem nada a perder.
Os argumentos sobre a notícia são falsos e querem disfarçar o que não tem desculpa. Aquilo não é jornalismo e o comportamento do Correio da Manhã justifica-se com uma hipocrisia desmedida que também precisa de ser denunciada. O que foi feito ontem, quarta-feira, vai contra os padrões éticos do jornalismo, prática que este jornal tem repetido várias vezes. Talvez ontem tenha mesmo ido longe demais, e a queixa no DIAP feita pela Comissão para a Cidadania e Igualdade de Género será disso prova.
É verdade que o Correio da Manhã (ainda) é o jornal que mais vende em Portugal. Também é verdade que baixou muito em vendas nos últimos meses e está à procura da receita para voltar a subir lucros. Nada disto faz dele um produto jornalístico – nem sequer o facto de às vezes trazer notícias. E não é isso que lhe dá o escudo ético ou o direito moral de usar o argumento do jornalismo para as suas acções despudoradas em busca da sustentação financeira. Todos os que compram o CM, todos os que lá escrevem e todos os que lá anunciam são cúmplices das atitudes vergonhosas do título.
Não se trata aqui de nenhuma falsa superioridade moral: como jornalistas erramos, mais do que devíamos. Faz parte do nosso trabalho errar sempre o menos possível. Mas aquilo que aconteceu ontem no Correio da Manhã não foi um erro, foi parte de uma estratégia que ainda vai continuar a piorar. E não é jornalismo.
São três verdades – que servem para esconder uma mentira. Porque a exibição do vídeo não é nem nunca seria notícia, é preciso denunciar esta mentira. A agressão é notícia, o vídeo faz parte da agressão e por isso relatar a sua existência fará parte da notícia. Mas exibir o vídeo é sensacionalista, degradante e humilhante para a vítima. Não é notícia e visa apenas conquistar mais cliques e ganhar a guerra da atenção – aquela que se ganha facilmente quando não se tem nada a perder.
Os argumentos sobre a notícia são falsos e querem disfarçar o que não tem desculpa. Aquilo não é jornalismo e o comportamento do Correio da Manhã justifica-se com uma hipocrisia desmedida que também precisa de ser denunciada. O que foi feito ontem, quarta-feira, vai contra os padrões éticos do jornalismo, prática que este jornal tem repetido várias vezes. Talvez ontem tenha mesmo ido longe demais, e a queixa no DIAP feita pela Comissão para a Cidadania e Igualdade de Género será disso prova.
É verdade que o Correio da Manhã (ainda) é o jornal que mais vende em Portugal. Também é verdade que baixou muito em vendas nos últimos meses e está à procura da receita para voltar a subir lucros. Nada disto faz dele um produto jornalístico – nem sequer o facto de às vezes trazer notícias. E não é isso que lhe dá o escudo ético ou o direito moral de usar o argumento do jornalismo para as suas acções despudoradas em busca da sustentação financeira. Todos os que compram o CM, todos os que lá escrevem e todos os que lá anunciam são cúmplices das atitudes vergonhosas do título.
Não se trata aqui de nenhuma falsa superioridade moral: como jornalistas erramos, mais do que devíamos. Faz parte do nosso trabalho errar sempre o menos possível. Mas aquilo que aconteceu ontem no Correio da Manhã não foi um erro, foi parte de uma estratégia que ainda vai continuar a piorar. E não é jornalismo.